“O Try Nordestin’ ganhou vida própria”


Pouco mais de um ano depois do arranque do projeto Try Nordestin’, e no preciso momento em que são dados passos importantes para a sua solidificação e desenvolvimento, é a altura ideal para questionar os objectivos do projeto, a forma como se está a implementar no terreno e qual a estratégia para o futuro. Luísa Pires, coordenadora da Associação de Desenvolvimento dos Concelhos da Raia Nordestina-Corane, entidade promotora do projecto, afirma que “o Try Nordestin’ ganhou vida própria”.

Mensageiro de Bragança: Quais foram os objectivos principais do Try Nordestin’?

O principal objectivo foi dotar a nossa região de um conjunto de ferramentas tecnológicas de última geração que proporcionassem uma informação e uma imagem fiável, profissional e organizada dos nossos produtos turísticos. Assim, para além da própria presença online com o website www.trynordest.in, foi desenvolvida uma API (Interface de programação) que está ao dispor de qualquer parceiro que queira colocar no seu website, por exemplo, uma caixa de pesquisa com ligação à nossa base de dados, que é neste momento a mais completa, fiável e atualizada na região. Temos 900 Pontos de Interesse (POI) identificados nos quatro concelhos da Terra Fria e esperamos aumentar consideravelmente esse número em breve. O Try Nordestin’ também teve o objectivo de fornecer alguma formação de Novas Tecnologias aos agentes económicos, com ações de divulgação, workshops, formação em Redes Sociais, etc.

Luísa Pires: Quais foram os passos para o desenvolver?

Primeiro foi necessário proceder ao levantamento e organização dos conteúdos, e à sua digitalização e inserção na base de dados. Há muitas pessoas que pensam que ter uma folha excel ou word com contactos telefónicos e endereços é suficiente, para a plataforma que nos propusemos desenvolver não era de todo, passamos meses no terreno a percorrer aldeias, vilas e cidades, a falar com os agentes económicos, a ouvi-los e a escrever os conteúdos que eles valorizavam. Ao mesmo tempo foram recolhidas imagens profissionais dos seus espaços, produtos, etc. e também foram feitos pequenos filmes que estão colocados na internet. O facto de o Try Nordestin’ ser baseado na georreferenciarão e ter uma componente de Realidade Aumentada associado ao mesmo, exigia um levantamento exato das coordenadas e da localização dos POI. Na parte institucional da maioria dos concelhos, essa informação já estava trabalhada pois vários municípios pioneira no país e até quase na Europa , na utilização da Realidade Aumentada associada ao turismo e aos dispositivos móveis.

MB: Que dificuldades e falhas encontraram nestes meses de trabalho na região?

 LP: Dificuldades de todo o tipo mas a principal é mesmo a falta de tempo, as distâncias, os recursos que nunca são suficientes e outras coisas mais relacionadas com a logística dos próprios agentes económicos. Também encontramos muita gente que ainda tem um certo receito da internet, medo que lhe roubem as ideias, os desenhos dos produtos, etc. Também aí desenvolvemos algum trabalho de esclarecimento e sensibilização para esta nova realidade que é a globalização.

MB: Como foram superadas essas lacunas?

LP: Com muito esforço, muito trabalho da equipa que está encarregue de fazer esse levantamento, com muita criatividade, prazer e sobretudo empenho. Por causa dessa força de vontade é que a parte que parecia mais complicada, a de motivar os agentes económicos, foi logo superada. O Try Nordestin’ levou esperança aos nossos microempresários, levou uma estratégia, levou algo que eles viram logo que pode ser vantajoso para eles próprios e para a sua comunidade. Rapidamente a palavra passou e todos estão de corpo e alma no projeto e a colaborar.

MB: Percebe-se que há então ainda muito por fazer na região?

LP: Sim há, sobretudo a este nível do contato com quem está no terreno, que não está nos gabinetes de Lisboa ou do Porto, ou até das nossas próprias cidades e vilas. O nosso tecido económico precisa de ser acarinhado, acompanhado e valorizado e às vezes o simples facto de se dizer que é necessário mais gente mais ideias e mais empresas na região, deixa-os frustrados, porque eles já estão cá a trabalhar e a lutar com o máximo de esforço e às vezes sentem que ninguém os valoriza. Naturalmente que todos os novos investimentos são bem vindos, e necessários até, mas, na minha opinião, a região devia primeiro olhar para o que tem e perceber que há imensa criatividade e inovação nos nossos empresários. A alguns falta apenas isso, parceiros que os ajudem a preparar melhor a imagem, os conteúdos, a parte tecnológica, etc. Muitos dos nossos empresários são bombardeados por ofertas que prometem o mundo e o outro e acabam por não colher nenhum resultado disso, além de que, muitas dessas acções distorcem inclusive, o modelo de negocio que devia interessar à região.

 MB: Qual seria o modelo de negócio ideal?

 LP: Acho que já todos percebemos que, por um lado temos um potencial insuperável ao nível do território, em todos os aspetos que todos sabemos enumerar de cor, por outro, temos dificuldades no nosso tecido económico que provavelmente não conseguiremos superar, sem a entrada de novos empresários, novos projectos e investimentos ligados ao sector do turismo e dos produtos agroalimentares, mas não numa escala industrial. O que temos de bom, só é bom e é valorizado porque não está ao alcance de todos. Se quisermos produzir industrialmente e forma massiva os nossos produtos e a nossa oferta, acabamos mais cedo ou mais tarde por abdicar da qualidade, uma vez que, no mercado competitivo globalizado há milhões de produtores a concorrer nesse sector. No sector mais exclusivo há menos concorrência, o valor é mais justo para o pequeno produtor e, aliando essa qualidade à oferta turística em todos os seus vectores, podemos conseguir, com alguns anos e muito trabalho, transformar a região num destino de qualidade e excelência organizado e com estratégia que crie e distribua riqueza e capte mais investimentos, mais pessoas, mais massa crítica.

MB: Porque é a Corane que está a desenvolver este projeto?

LP: Foi um projeto transnacional com outros parceiros do território e também de Espanha.  Não havia bem uma ideia do que se poderia fazer e solicitamos uma consultoria que nos propôs uma ideia disruptiva, inovadora e perfeitamente enquadrada no espírito do programa. A direção da Corane confiou na estratégia, acreditou no projeto e isso tornou possivel a sua execução. Todos os nossos parceiros aplaudiram e elogiaram o conceito e também serviu para a própria Corane se organizar e preparar para os novos desafios que estão aí à porta. Mas neste momento o projecto já não é nosso, é do território, o Try Nordestin’ ganhou vida própria, tem surgido parceiros de todo o Nordeste de Portugal, Mogadouro, Macedo de Cavaleiros, Montalegre, Mondim de Bastos, etc.

MB: O que difere o Try Nordestin’ de outros “portais” turísticos?

LP: Quem diz que o projeto Try Nordestin’ é um portal como todos os outros, mostra ignorância, tem uma visão limitada do que é na atualidade a promoção dos produtos turísticos e dos destinos. O Try Nordestin’ é um movimento. É uma plataforma estratégica que se materializa em diversas coisas que estão desenvolvidas e outras serão desenvolvidas. Obviamente que tem a componente online com a página web e com as redes sociais, mas tem muito mais do que isso. Tem na sua essência um espírito de parceria e de rede que tem faltado à região. Tem uma visão profissional e, ao mesmo tempo, apaixonada e competente…

MB: Não é mais um site portanto?

LP: Em toda a região de Trás-os-Montes e Alto Douro tem surgido diversos portais turísticos, diversas páginas de facebook a promover a região. Todos são importantes, todos são válidos, o Try Nordestin’, não concorre com eles, está, antes, para os ajudar, para cooperar, para os desafiar a dar as mãos e a trabalhar com cabeça tronco e membros, apenas e só com o objetivo de melhorar a imagem da região, promover os nossos produtos e criar riqueza para o território.

MB: Toda a atividade económica na região deve centralizar-se no Turismo?

 LP: Temos ouvido há anos que o turismo é o futuro. E se analisarmos o nosso território percebe-se que, efectivamente, é incontornável. O nosso sector económico deve basear-se no turismo. Claro que, os produtos agroalimentares são outro potencial, mas aí é fácil de ligar sectores e criar em Trás-os-Montes, um verdadeiro cluster turístico que potenciará certamente o desenvolvimento de outras atividades económicas, mas sempre assentes numa matriz de qualidade.

 MB: Mas isso é o que se tem falado há anos e anos, porque não se avançou mais?

 LP: Não sei responder. Da nossa parte temos tido um papel na preparação de negócios ligados à agricultura e ao turismo. Os próprios promotores já se aperceberam que aliar o máximo de valências a um projeto turístico, é mais sustentável e garante mais rendimento.

 MB: A Corane e outras associações homologas, têm tido um papel preponderante nos processos de financiamento de projetos na área do turismo, quais os resultados visíveis na região?

LP: Atualmente temos uma boa capacidade de acolhimento de turistas e também e também muitos projetos apoiados na área dos produtos agroalimentares. Falta organiza-los e promove-los de uma forma concertada para que toda a região ganhe. Não faz sentido ir visitar o Douro e não tentarmos captar esse visitante para Miranda e já que está em Miranda, porque não uma tarde em Vinhais.

 MBO Try Nordestin’ tem a componente formativa e de transferência de conhecimento na área das Tecnologias de Informação e Comunicação, é uma das lacunas na região?

LP: Como referi há pouco, estão a surgir portais e páginas de facebook, umas amadoras outras mais profissionais, mas nos tempos que correm, é fácil gastar dinheiro em portais web. O mais difícil é dinamiza-las, trabalhar em conjunto com quem tem responsabilidade, com quem está envolvido na economia, etc. Este já não é o tempo dos portais turísticos. Este é o tempo dos conteúdos e da criatividade. Por isso, o Try Nordestin’ está noutro patamar porque usa a tecnologia para passar as mensagens e ajuda os seus parceiros a utilizar essa tecnologia para fazerem o mesmo. Sejam municípios, sejam restaurantes, sejam artesãos. Cada agente no território tem a responsabilidade de o promover. Se o fizer incluído numa estratégia, só temos a ganhar.

 MB: A plataforma está em expansão, há uma vontade de fazer parcerias num território cheio de disputas e bairrismos como é o de Trás-os-Montes?

 LP: A Corane tem parceiros em todo o país e também tem parcerias em toda a Europa. Seria um contrassenso que não buscássemos plataformas de entendimento com quem, como nós, almeja alcançar os mesmos objectivos de desenvolvimento económico para as nossas comunidades. Não disputamos nada com ninguém, antes pelo contrário, sabemos e queremos partilhar do mesmo ideal transmontano que todos os transmontanos têm interiorizado, sejam eles de Bragança, Mirandela, Chaves, ou Vila Real. Nesta fase, o Try Nordestin’ vai integrar os Municípios da Terra Quente através da associação nossa congénere, a Desteque, com quem estamos a desenvolver outro tipo de parcerias, e estamos a trabalhar para incluir outras neste movimento, aliás já fomos contactados para ir apresentar o projecto a outros “territórios” dentro do nosso Nordeste de Portugal.

 MB: Como se propõe fazer essa “união territorial”?

 LP: Começamos por fazer coisas simples, por exemplo, abrindo a página do Try Nordestin no facebook, a administradores de todos os concelhos de Trás-os-Montes. Tivemos imensas pessoas que, a troco de pouco mais que um agradecimento, se dispuseram a trabalhar em prol da divulgação das suas cidades, vilas e aldeias. É assim, apelando ao orgulho transmontano e apelando à união, sem outros objectivos escondidos, sejam eles de negocio, ou de política. O Try Nordestin’, é um movimento completamente cristalino e porventura, é isso que o faz ser tão acarinhado e aceite em todo o território.

 MB: Seria portanto uma união económica?

LP: É uma união de base económica, sim. Na parte administrativa e política, as coisas estão definidas e não merecem comentários. Mas a tendência mundial é que qualquer projeto que seja executado a partir “de cima” já não tem sucesso garantido. E se calhar tem sido esse o nosso problema. Há muita gente a mandar no alto dos gabinetes de Lisboa e do Porto e acabamos por sofrer o que estamos a sofre: desertificação humana, abandono dos campos, das aldeias, envelhecimento da população e pouca atratividade para investimentos e massa critica. Nós começamos por baixo, junto dos que estão a trabalhar e a sentir dificuldades diárias. Vai ser com todos eles que vamos procurar levantar a cabeça e organizar-nos e vencer. Porque ninguém conhece melhor a região do que nós próprios.

MB: Como está a ser aceite a marca Nordeste de Portugal?

 LP: O conceito do Try Nordestin’ foi idealizado para o exterior da região. Na fase de estudo de marca, percebeu-se que apenas a designação Nordeste, tinha dinâmica, aceitabilidade e lógica até. Já ultrapassamos a fase de discussão, o Nordeste de Portugal vai, se tudo correr como planeado, alcançar uma notoriedade global. Claro que o Nordeste como está definido no nosso projeto, engloba a Terra Fria, a Terra Quente, o Douro, o Barroso, o Tâmega, etc. Todas essas sub-regiões são comunicadas com essas identidades. Apenas as situamos no mapa.

 MB: Quais as principais dificuldades do projeto nesta fase?

 LP: Algumas já as referi, mas a principal, neste momento, tem a ver com os recursos financeiros. Como dissemos no dia do lançamento do projeto, era uma plataforma complexa, que está concretizada devido a uma dedicação extrema e profissionalismo dos diversos parceiros envolvidos. Mas também referimos que ia ter sustentabilidade. Não é mais um projeto parasita de fundos comunitários. Há um modelo de negocio, está a ser ultimado e será executado em breve.

MB: Comprado com outros o financiamento comunitário deste projeto é até ridículo.

 LP: Como expliquei, foi uma ideia arrojada para um envelope financeiro demasiado pequeno na altura. Contudo, há novas candidaturas que podemos fazer e que nos podem ajudar a solidificar esta plataforma, torna-la numa ferramenta essencial para ajudar o Nordeste a crescer e a desenvolver-se economicamente. Também temos algumas acções que vão dar contribuir par aumentar a notoriedade da plataforma, da região e que certamente vão cimentar ainda mais estes laços de união que estamos a cultivar nos 38 municípios.

MB: Que tipo de acções?

 LP: Temos participado em várias feiras regionais e vamos organizar uma grande ação por todos os concelhos apresentando o Try Nordestin’ aos agentes económicos e em parceria com as forças vivas locais. Também iremos fazer uma acção semelhante mas a nível nacional, porque o nosso objectivo é exactamente esse, de promover de uma forma séria o Nordeste, com a divulgação estratégica dos nossos produtos, com ações bem definidas e orientadas para o nicho de turismo que achamos ser o adequado ao nosso território. Também temos participado em feiras internacionais de turismo, estivemos na INTUR em Valladolid, vamos ter uma presença na BTL e posso também adiantar que esta semana iremos divulgar publicamente uma grande acção de promoção numa das mais importantes feiras de profissionais de turismo da Rússia. É, inclusive, a única presença nacional nesse certame, pelo que, estaremos não só a divulgar a nossa região, como também o próprio país.

 MB: Mas não era suposto que as organizações institucionais ligadas ao turismo fizessem esse trabalho de promoção?

 LP: Desde o arranque do projeto que temos o Entidade Regional de Turismo Porto e Norte como parceira e, em contactos posteriores com o responsável deste organismo, decidimos agendar um encontro para concertar estratégias comuns de promoção. Como referi, o nosso projeto é agregador e nunca de cisão. Queremos trabalhar por um objectivo bem definido e de uma forma profissional e que permita obter resultados palpáveis, visíveis. Não queremos gastar milhões de euros em promoção em ações de feiras e eventos que acabam por não trazer nada para a região. Já temos feito um levantamento de iniciativas e eventos que se adequam aos nossos produtos e é para eles que estamos a direcionar as nossas ações.

 

Fonte: Mensageiro de Bragança.